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Pele de tilápia vira curativo: Brasil terá a primeira fábrica do mundo e o resíduo da filetagem ganha novo destino

Mãos com luvas segurando uma pele de tilápia inteira, com escamas, em laboratório

A pele que sai da mesa de filetagem e normalmente vai para a farinha de peixe está prestes a ganhar um destino bem diferente. O Brasil vai receber, em Jaguaribara, no interior do Ceará, a primeira fábrica do mundo dedicada a transformar pele de tilápia em curativo biológico para queimaduras e feridas de difícil cicatrização.

O investimento inicial é de R$ 52 milhões, a tecnologia nasceu na Universidade Federal do Ceará (UFC) e a produção industrial ficará a cargo do Consórcio Biotec, por meio da Inova Medical. A construção está prevista para começar em outubro de 2026 e, se o cronograma for cumprido, a operação começa em janeiro de 2028.

Para quem produz tilápia, a notícia vale ser lida com atenção. Ela mostra que um subproduto de baixo valor pode virar insumo de alta tecnologia, e que o peixe que sai dos viveiros brasileiros tem muito mais valor do que o filé.

A fábrica em números

A unidade será instalada às margens do Açude Castanhão, maior polo de tilápia do Ceará. Jaguaribara é conhecida como a "capital da tilápia" do estado.

Os números divulgados pelo Governo do Ceará e pelas empresas envolvidas dão a dimensão do projeto:

  • Capacidade: cerca de 4,3 mil curativos por dia no primeiro ano, podendo chegar a 12 mil por dia na segunda fase. Em peles processadas, a previsão da Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Ceará é sair de 180 mil peles por mês no início para 400 mil peles mensais ao final do terceiro ano.
  • Empregos: 120 no primeiro ano, 204 no segundo e 300 no terceiro.
  • Mercado: cerca de metade da produção deve ir para exportação. México, Turquia e Portugal já demonstraram interesse na tecnologia.

Para comparar, hoje o laboratório da UFC consegue preparar em média 600 peles por mês. A fábrica multiplica isso por centenas de vezes.

Um dos potenciais fornecedores de matéria-prima é a Só Tilápias, empresa de Jaguaribara que produz cerca de 200 toneladas de tilápia por mês. A comercialização do curativo, porém, ainda depende do cumprimento das exigências regulatórias e sanitárias da Anvisa.

Por que justamente a pele de tilápia?

A ideia surgiu em 2011 com o cirurgião plástico pernambucano Marcelo Borges, ao ler que a pele da tilápia era descartada e apenas 1% ia para o artesanato. Em 2014 ele levou a proposta ao cirurgião plástico cearense Edmar Maciel Lima Júnior, e em 2015 a pesquisa começou no Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos (NPDM) da UFC, coordenado pelo professor Manoel Odorico de Moraes.

Os estudos histológicos explicam a escolha. A pele da tilápia tem colágeno tipo I em quantidade maior do que a pele humana, boa resistência à tração e boa umidade. No estudo comparativo, ela se saiu melhor do que a pele de porco e a pele de rã. Além disso, a microbiota da pele da tilápia não é infecciosa para humanos, o que facilita o processo de esterilização.

Tem também o lado prático. Na rede pública brasileira, queimaduras são tratadas com pomada de sulfadiazina de prata, que exige trocas diárias e dolorosas. Nos Estados Unidos e na Europa, usa-se pele humana ou pele de porco industrializada, mas importar esse produto nunca foi viável no Brasil. O país tem apenas três bancos de pele humana em funcionamento, que não suprem 1% da necessidade. A tilápia, por sua vez, é o peixe mais cultivado do Brasil, e sua pele é um descarte abundante e barato.

Como a pele é coletada e por que ela precisa chegar fresca

Esse é o ponto que mais interessa a quem produz. O protocolo patenteado pela UFC descreve a coleta com detalhes.

Os peixes vêm de tanques-rede do Castanhão, com peso entre 800 gramas e 1 quilo, que a tilápia atinge em cerca de seis meses. São insensibilizados por choque térmico, em caixas com gelo e água, e depois sangrados. Logo após o abate, a pele é retirada, lavada em água corrente para eliminar sangue e impurezas e colocada em soro fisiológico estéril já resfriado a 4 °C. Em seguida, o excesso de músculo que fica aderido é removido e a pele é cortada em peças de 10 por 5 centímetros.

Daí em diante o trabalho é de laboratório: banho em clorexidina a 2% por 30 minutos, etapas de glicerol em ambiente estéril no NPDM e, por fim, irradiação gama no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN), em São Paulo.

E por que a pele precisa ser fresca? Porque o que faz o curativo funcionar é a estrutura do colágeno, e essa estrutura começa a se degradar assim que o peixe morre. Pescado é um alimento que deteriora rápido, pela ação de enzimas do próprio tecido e de bactérias. Cada hora fora do frio aumenta a carga microbiana, dificulta a esterilização e compromete as fibras de colágeno. Congelar ou salgar a pele, como se faz com o couro, também altera essa estrutura. Por isso o protocolo prevê coleta no momento do abate, frio imediato e processamento rápido.

Isso explica também por que a fábrica fica ao lado do açude: quanto menor a distância entre o frigorífico e a planta, mais íntegra chega a matéria-prima.

Um detalhe interessante é que a pele no glicerol, primeiro produto desenvolvido, precisava ficar refrigerada, com logística cara e complexa. O segundo produto, a pele liofilizada, resolveu isso: desidratada a baixa temperatura, embalada a vácuo e esterilizada por radiação gama, ela fica em temperatura ambiente, com validade de até três anos. É essa versão que a fábrica vai produzir. Na hora de usar, basta reidratar.

Como funciona no paciente

A pele de tilápia é aplicada em forma de telhas sobre a ferida, com sobreposição entre as peças e cobrindo de 1 a 2 centímetros da pele sadia nas bordas. Por cima vai um curativo secundário com gaze e atadura.

Em cerca de 48 horas a pele adere ao leito da ferida e não precisa mais ser trocada. Ela fica ali até a cicatrização, evitando a perda de líquidos e proteínas e impedindo a contaminação externa. Ao final, as peças se soltam sozinhas ou são retiradas com água corrente ou vaselina líquida, e uma pele nova aparece por baixo.

O resultado prático é menos dor, menos trocas de curativo, menos analgésicos e anestesia, menos trabalho da equipe e menor custo. Os estudos da UFC apontam redução de quase 50% nos custos ambulatoriais, e a empresa responsável pela fábrica fala em 52% de economia no custo total do tratamento.

Um relato de caso publicado em 2020 na Revista Brasileira de Cirurgia Plástica dá uma ideia do efeito: uma paciente de 18 anos, com queimaduras de segundo grau profundo em 13,5% da superfície do corpo, recebeu 11 peles de tilápia e teve a ferida completamente reepitelizada em 16 dias. Com o tratamento padrão, a expectativa seria de cerca de três semanas.

O que a ciência já testou

O curativo não saiu do laboratório para a fábrica de uma hora para outra. Foram mais de dez anos de pesquisa, com etapas bem definidas:

  • Pré-clínica (2015): 14 etapas em 18 meses, incluindo histologia, esterilização, microbiologia, toxicidade e aplicação em ratos.
  • Fase clínica I (2016 e 2017): testes de alergia e sensibilidade em pele humana.
  • Fase clínica II (a partir de 2016): 60 pacientes adultos no Instituto Dr. José Frota, em Fortaleza, um dos maiores serviços de queimados do país.
  • Fase clínica III (a partir de 2017): 120 pacientes adultos, além de estudos com crianças e comparação de custos com a sulfadiazina de prata.

Até 2023, a pele de tilápia em glicerol e liofilizada já tinha sido usada em mais de 550 pacientes queimados. A pesquisa cresceu para outras áreas: cirurgias ginecológicas de reconstrução, preparo de enxertos em cirurgias reconstrutivas de mãos, feridas em cães e cavalos, reparo de córnea em mais de 420 cães e o desenvolvimento de uma matriz proteica para uso interno e de colágeno purificado. Hoje são mais de 300 pesquisadores envolvidos, espalhados por nove países.

Quanto resíduo o Brasil gera e quanto a fábrica precisa

Aqui a conta fica interessante para o produtor.

Segundo o Anuário Peixe BR 2026, o Brasil produziu 707.495 toneladas de tilápia em 2025. O rendimento de filé fica entre 33% e 38% do peso do peixe, o que significa que mais de 60% vira resíduo: cabeça, carcaça, vísceras, escamas e pele. A pele sozinha representa cerca de 6% do peso do animal.

Se toda a tilápia brasileira fosse filetada, isso daria algo em torno de 42 mil toneladas de pele por ano. Pensando em unidades, com peixes de cerca de 900 gramas, são aproximadamente 790 milhões de tilápias abatidas por ano, ou 65 milhões por mês.

A fábrica, em plena capacidade, vai processar 400 mil peles por mês. Ou seja, menos de 1% da tilápia abatida no Brasil. Só o Ceará, com 15,7 mil toneladas de peixe em 2025, abate algo em torno de 1,4 milhão de tilápias por mês. E a Só Tilápias, com suas 200 toneladas mensais, sozinha produziria em torno de 220 mil peixes por mês, quase o suficiente para a fase inicial de 180 mil peles.

Matéria-prima, portanto, sobra. O que a fábrica vai buscar é a pele que já sai em boas condições dos frigoríficos da região: peixe no peso certo, abatido com inspeção, pele íntegra e resfriada logo após a filetagem. Esse trabalho acontece na indústria, não na fazenda.

Vale lembrar que a pele de tilápia já tem mercado em outros destinos. No Paraná, a cooperativa C.Vale exporta 75 toneladas de pele por mês para Taiwan, para a indústria de cosméticos. O que a fábrica cearense faz é abrir uma porta de valor ainda maior.

Fontes:

Lima Júnior, E. M. et al. Linha do tempo da pele de tilápia (Oreochromis niloticus) na medicina regenerativa moderna: da bancada ao paciente. Revista Brasileira de Queimaduras, v. 22, n. 2, 2023.

Lima Júnior, E. M. et al. Tratamento de queimaduras de segundo grau profundo em abdômen, coxas e genitália: uso da pele de tilápia como um xenoenxerto. Revista Brasileira de Cirurgia Plástica, v. 35, n. 2, 2020.

Lima Júnior, E. M. Tecnologias inovadoras: uso da pele da tilápia do Nilo no tratamento de queimaduras e feridas. Revista Brasileira de Queimaduras, v. 16, n. 1, 2017.

Patente US 11.135.337. Tilapia skin processing method and use thereof for covering skin injuries. USPTO, 2021.

O Globo. Brasil terá primeira fábrica do mundo de pele de tilápia para tratar queimaduras; entenda tecnologia. 17 ago. 2026.

IPEN / Ceará Agora. Ceará fortalece polo de biotecnologia com primeira fábrica do Brasil de curativos à base de pele de tilápia. 12 ago. 2026.

Movimento Econômico. Tilápia do Castanhão: pesquisa da UFC impulsiona piscicultura do Ceará. 16 mar. 2026.

Itatiaia Agro. Paraná amplia liderança na produção de tilápia e aposta em novos derivados.

Peixe BR. Anuário Brasileiro da Piscicultura 2026. Associação Brasileira da Piscicultura, 2026.

Souza, M. L. R. Rendimento de carcaça, filé e subprodutos da filetagem da tilápia do Nilo (Oreochromis niloticus). Acta Scientiarum Animal Sciences, Universidade Estadual de Maringá.