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El Niño na aquicultura: como proteger sua produção de temporais, seca e falta de energia

Vista aérea de viveiro de tilápia com grande quantidade de peixes mortos boiando junto à margem

Foram cerca de 23 horas sem energia elétrica. Na tarde de 29 de setembro de 2026, um temporal derrubou postes e cabos na zona rural de São João do Ivaí, no Norte do Paraná, e os aeradores de uma piscicultura de tilápia pararam. A luz só voltou perto do meio-dia seguinte. A estimativa preliminar da empresa é de 300 mil a 400 mil peixes mortos, com prejuízo calculado em cerca de R$ 2 milhões.

Os mais atingidos foram os peixes maiores, já na reta final da engorda e próximos do abate. Só um tanque, com peixes pequenos, teve a população praticamente toda preservada. Segundo o proprietário, a perda equivale a cerca de seis meses de produção.

O estrago vai além da porteira. A empresa emprega entre 50 e 60 pessoas e abastece clientes em cerca de 100 municípios paranaenses. Quando um caso assim acontece, perde o produtor, perdem as famílias que vivem da atividade, perde a indústria que fica sem matéria-prima e, lá na ponta, perde o consumidor, que encontra menos peixe no mercado.

E esse não é um caso isolado. Com o El Niño ganhando força, temporais, cheias, secas e ondas de calor tendem a aparecer com mais frequência nos próximos meses. Veja o que está por trás dessa imprevisibilidade, como ela afeta peixes e camarões e o que dá para fazer para não ser pego de surpresa.

O que o El Niño tem a ver com a sua produção

O El Niño é o aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico. Esse calor muda o regime de ventos, chuvas e temperaturas em boa parte do planeta, e o Brasil sente bastante.

Em junho de 2026, a agência norte-americana NOAA confirmou o início do fenômeno. No boletim de setembro, o Inmet e parceiros apontaram probabilidade acima de 95% de o El Niño atingir intensidade muito forte no próximo trimestre, permanecendo pelo menos até o início de 2027. O desenho previsto é de contrastes:

  • Sul: chuva acima da média, com risco de cheias. O Vale do Taquari, o rio Caí (RS) e municípios de Santa Catarina já registraram inundações em 2026.
  • Centro-Norte: seca, calor e maior risco de queimadas. No Norte, há municípios com dificuldade até para captar água.
  • Temperaturas acima da média em grande parte do país.

Na agricultura, esse efeito já é conhecido. O atraso ou o excesso de chuva mexe no calendário de plantio e de colheita, e o produtor de grãos replaneja a safra olhando a previsão do tempo. Na aquicultura a lógica é parecida, só que o "plantio" é o povoamento e a "lavoura" está dentro d'água, 24 horas por dia, dependendo de oxigênio.

Os riscos do clima imprevisível na aquicultura

1. Falta de energia e oscilação na rede

Em sistemas intensivos, o aerador é o que mantém o peixe vivo à noite. Durante o dia, as algas produzem oxigênio pela fotossíntese. À noite esse processo para, e peixes, algas e bactérias passam todos a consumir oxigênio. Se o aerador desliga, o nível cai rápido.

E cai primeiro onde há mais peixe. Tanques com animais grandes concentram mais quilos por metro cúbico, e mais biomassa significa mais consumo de oxigênio. Por isso, numa queda de energia, os lotes prontos para o abate costumam ser os mais atingidos, justamente os que já receberam quase toda a ração do ciclo.

O caso de São João do Ivaí não foi o único em 2026. Em fevereiro, um produtor de Tupãssi (PR) perdeu cerca de 900 toneladas de tilápia, com prejuízo estimado em R$ 9 milhões, depois que oscilações na rede queimaram os aeradores. Em Nova Aurora (PR), cerca de 20 horas de instabilidade mataram 25 toneladas de peixe, mesmo com a equipe usando mais de 100 quilos de oxigênio em pó para tentar segurar os tanques. Segundo o Sistema FAEP, as reclamações sobre o fornecimento de energia no Paraná subiram 110%, de cerca de 2,9 mil para mais de 6 mil registros.

Repare que o problema não é só a falta total de energia. A oscilação e a tensão abaixo do normal também queimam motores, e aerador queimado é aerador parado.

2. Excesso de chuva e cheias

Chuva forte muda a água do viveiro de uma hora para outra. A enxurrada arrasta terra e matéria orgânica, aumenta a turbidez e pode derrubar o pH e a alcalinidade. Dias seguidos de céu nublado também reduzem a fotossíntese, e com ela o oxigênio disponível.

No camarão, a chuva intensa dilui a água e derruba a salinidade. Mudanças bruscas estressam os animais e podem causar mortalidade, principalmente de pós-larvas recém-povoadas.

Há ainda o risco físico. Nas enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul, a Emater/RS registrou transbordamento e rompimento de açudes, fuga de peixes e dificuldade de chegar aos tanques para alimentar os animais.

3. Seca, calor e falta de água

Com menos chuva, o nível dos viveiros baixa e a água esquenta mais rápido. Água quente segura menos oxigênio, e um volume menor concentra amônia e outros resíduos. Rios, açudes e poços que abastecem a propriedade também podem não dar conta.

Na seca de 2023 na Amazônia, lagos da região passaram de 37 °C durante o dia. Em uma piscicultura local, mais de 3 mil tambaquis e pirapitingas morreram quando a água ultrapassou 35 °C. Para os próximos meses, é esse o cenário previsto para boa parte do Norte, do Nordeste e do Centro-Oeste.

4. Mudanças bruscas de temperatura

No Sul, frentes frias que chegam depois de dias quentes provocam quedas rápidas na temperatura da água. O peixe come menos, digere mal e fica mais vulnerável a doenças. A orientação da Emater/RS é suspender a alimentação quando a água fica abaixo de 16 °C.

Como proteger a produção

Energia: não dependa só da rede

  • Gerador com partida automática. Equipado com quadro de transferência automática, ele liga sozinho quando a rede cai, inclusive de madrugada, sem depender de alguém acordado. Precisa ser dimensionado para os aeradores críticos, testado com carga todo mês e ter combustível estocado para pelo menos um a dois dias. Um piscicultor de Marechal Cândido Rondon (PR), que já tinha perdido toda a produção numa queda de energia, investiu R$ 100 mil em um gerador automático e conta que o equipamento já chegou a funcionar dois dias seguidos.
  • Proteção contra oscilação. Relés de subtensão e de falta de fase desligam os motores antes que queimem e permitem religar quando a tensão normaliza. É um investimento pequeno perto do preço de um aerador, ou de um tanque inteiro.
  • Energia solar com baterias. Atenção a um detalhe que pega muita gente: o sistema solar comum, ligado à rede, desliga junto com ela quando falta luz, por segurança. Para manter os equipamentos funcionando, o sistema precisa ser híbrido ou isolado (off-grid), com banco de baterias. Hoje ele faz mais sentido para as cargas críticas, como sondas, alarmes e parte da aeração noturna, combinado com o gerador. Para viveiros menores, também existem aeradores solares com bateria própria.
  • Oxigênio de emergência. Cilindros de oxigênio puro com difusores ou produtos que liberam oxigênio na água compram horas preciosas. Deixe o estoque pronto e a equipe treinada para usar.
  • Alarme e monitoramento. Sondas de oxigênio dissolvido que mandam alerta para o celular e alarmes de falta de energia avisam o problema na hora, e não quando o dia amanhece com peixe boiando.

Tenha um plano de contingência

Na hora do apagão não dá para improvisar. Defina antes quem é avisado, quem liga o gerador, onde está o oxigênio e quais tanques recebem prioridade (os de maior biomassa).

Use a previsão do tempo como ferramenta de manejo. Com alerta de temporal, confira gerador e combustível e reduza ou suspenda a ração, já que a digestão aumenta o consumo de oxigênio. Em meses de maior risco, vale avaliar densidades mais folgadas e, quando a previsão for severa, antecipar a despesca de lotes que já estão no ponto.

E registre toda queda de energia com número de protocolo na distribuidora. Esse histórico é a base para pedidos de ressarcimento e para cobrar melhorias na rede.

Cuide da água: quantidade e qualidade

  • Depois de chuvas fortes, meça oxigênio, pH, alcalinidade e transparência (e salinidade, no camarão). Se a alcalinidade cair, a correção com calcário deve ser feita com orientação técnica.
  • Estrutura preparada: vertedouros bem dimensionados e telados contra fuga, borda livre nos viveiros, taludes reforçados e canais que desviem a enxurrada para longe dos tanques.
  • Em tempos de seca: tenha reserva de água ou fonte alternativa, com a outorga em dia, reforce a aeração nas noites quentes, ofereça ração nos horários mais frescos e ajuste a densidade à água disponível.

Gestão: saber onde está o risco antes do problema

O clima não dá para controlar, mas dá para saber exatamente o que está em jogo em cada tanque. Quem acompanha biomassa, peso médio, densidade, oxigênio, temperatura e consumo de ração lote a lote sabe quais tanques são os mais vulneráveis naquele momento e para onde direcionar gerador, oxigênio e equipe quando a energia cair.

O histórico também ensina. Cruzar os dias de oxigênio baixo ou de água fria com a queda no consumo de ração ajuda a ajustar o manejo antes do próximo evento, e a calcular quanto vale investir em proteção.

É isso que a plataforma Meu Pescado faz: reúne em um só lugar os dados de cada tanque e viveiro, integra sondas, aeradores e alimentadores de diferentes marcas e funciona até sem internet no campo. Clima imprevisível pede decisão rápida, e decisão rápida pede dado organizado.

Fontes:

Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Cptec/Inpe e parceiros. Painel El Niño 2026-2027, boletim de setembro de 2026. Brasília, 2026.

Emater/RS-Ascar. Informativo Conjuntural, maio de 2024.

Mongabay. "The Amazon's lakes are heating up at alarming rate, research finds". Dez. 2025.

Queiroz, J. F.; Boeira, R. C. Boas práticas de manejo para manter concentrações adequadas de oxigênio dissolvido em viveiros de piscicultura. Embrapa Meio Ambiente, Comunicado Técnico 54, 2016.