← Voltar para o blog Manejo · Peixe

Ultrassonografia de carcaça em peixes: como escolher bons reprodutores sem abater o animal

Imagens de tomografia e cortes internos de uma tilápia mostrando esqueleto, músculos e cavidade abdominal

Todo produtor sabe o peso que o rendimento de filé tem na hora de vender. O difícil sempre foi saber quais peixes carregam esse rendimento na genética e merecem ser pais e mães da próxima geração. Por muito tempo, para medir o filé era preciso abater o animal, e aí o melhor reprodutor só era descoberto quando já não podia reproduzir.

A ultrassonografia de carcaça mudou essa conta. Empresas de genética, como a GenoMar, já utilizam a técnica para identificar peixes com melhor conformação e selecionar reprodutores sem precisar abatê-los. Veja como isso funciona, o que a pesquisa já mostra e onde a tecnologia pode entrar na rotina da fazenda.

O problema: o melhor reprodutor só aparecia depois de morto

O rendimento de filé não pode ser medido com o peixe vivo. Por isso, os programas de melhoramento tinham basicamente dois caminhos:

  • Avaliar os irmãos. Abatem-se parentes do candidato, mede-se a carcaça e o filé deles e, a partir disso, estima-se o valor do peixe que ficou vivo. Funciona, mas é uma estimativa indireta.
  • Medir no vivo algo ligado ao rendimento. É o que se chama de seleção indireta: em vez do filé, mede-se uma característica que acompanha o filé na genética e que dá para enxergar sem abater.

A ultrassonografia entra justamente nesse segundo caminho.

O que é ultrassonografia de carcaça

É a mesma ideia dos exames de imagem que conhecemos. Uma sonda emite ondas sonoras, e o aparelho transforma o retorno delas em uma imagem das camadas do corpo, como músculo, gordura e cavidade abdominal. Com a imagem na tela, dá para medir espessura e área do músculo sem cortar nada.

Na pecuária de corte, isso já é rotina há tempos. Nos bovinos, o ultrassom mede a área de olho de lombo e a espessura de gordura, e ajuda a escolher os animais com melhor carcaça. A Associação Americana de Angus relata que, depois que os dados de ultrassom passaram a entrar nas avaliações genéticas, em 1995, os ganhos nessas características foram mais expressivos do que os obtidos com o teste de progênie convencional.

Agora essa tecnologia chegou aos peixes.

O que as pesquisas mostram

O trabalho com tilápia vem crescendo, inclusive no Brasil:

  • Universidade Federal de Lavras. Um estudo com 897 tilápias de 53 famílias avaliou imagens de ultrassom feitas em três pontos do corpo. As características de carcaça mostraram herdabilidade moderada, entre 0,23 e 0,33. Em termos simples, uma parte relevante da variação passa dos pais para os filhos, então vale a pena selecionar. E as medidas do ultrassom tiveram correlação genética alta com o rendimento de filé, entre 0,83 e 0,92. Isso significa que o que aparece na imagem caminha junto, na genética, com o filé. A conclusão dos autores é que a seleção indireta por ultrassom é eficaz e pode entrar nos programas de melhoramento de tilápia.
  • Padronização das imagens. Outro estudo, publicado na revista Aquaculture International, usou 30 tilápias de cerca de 650 g e imagens em três pontos padrão do corpo. As medidas feitas pelo ultrassom ficaram muito próximas das medidas tiradas diretamente da carcaça depois do abate, com correlações entre 0,78 e 0,98.
  • Truta arco-íris, na França. Pesquisadores mostraram que a relação entre a espessura da parede abdominal e a profundidade da cavidade, medida por ultrassom em peixe vivo, ajuda a prever o rendimento de filé e permitiu selecionar reprodutores a partir dela.
  • Bagre americano. Estudos antigos já indicavam o potencial do ultrassom para prever rendimento de carne em peixe vivo.

Um ponto de honestidade: a previsão não é perfeita. No estudo com tilápia citado acima, a relação das imagens com o rendimento de filé em si foi moderada, e os próprios pesquisadores falam em melhorar a precisão. O ultrassom é uma ferramenta de seleção poderosa, mas funciona melhor combinado com outras informações do programa genético, como crescimento e histórico das famílias.

Como é feito na prática

Nos estudos, o roteiro é parecido:

  • O peixe recebe anestesia leve, para ficar parado e sem estresse.
  • Ele é mantido na água ou muito bem úmido, e a sonda linear é passada em pontos definidos do corpo. Em um dos trabalhos, a medição começou na altura da quinta espinha da nadadeira dorsal.
  • As imagens são salvas e analisadas em software, que calcula áreas e espessuras.
  • Depois da medição, o peixe volta para água oxigenada para se recuperar.

Como o peixe não é abatido, ele continua disponível para reprodução, e o procedimento respeita o bem-estar animal.

Onde isso entra na fazenda

Aqui vale separar dois perfis de produtor.

Quem trabalha com reprodução e alevinagem. É o público que mais se beneficia. Quem mantém seu próprio plantel de reprodutores e vende alevinos pode usar o ultrassom para escolher quais peixes seguem como matrizes e reprodutores, com base em critérios de carcaça, e não só em tamanho e aparência. Para quem vende alevino, isso ainda vira argumento comercial, porque o cliente da engorda quer peixe que dê bom rendimento no frigorífico.

Quem faz engorda. Não precisa ter o equipamento, mas se beneficia de forma indireta. Quando a genética que você compra vem de programas que selecionam também por rendimento de carcaça, o ganho aparece na despesca e no filé. Vale perguntar ao fornecedor de alevinos quais características entram na seleção e que resultados ele acompanha.

Em ambos os casos, o equipamento e a análise das imagens pedem uma pessoa treinada. Na pecuária, a experiência de quem opera o aparelho é apontada como um dos principais limitantes da técnica, e nos peixes não deve ser diferente. Por isso, o caminho mais comum é contar com uma empresa de genética, um centro de pesquisa ou um técnico especializado para fazer as medições.

Com que frequência fazer

Não há uma regra única publicada para a frequência. Como o objetivo é escolher quem vai reproduzir, a lógica é medir cada candidato na fase de seleção, quando o peixe já está grande o bastante para a imagem ser confiável (nos estudos brasileiros, em torno de 650 g de peso médio), e não repetir o exame toda semana. O momento ideal depende da espécie, da linhagem e do cronograma de cada programa, então o melhor é alinhar com o responsável técnico pelo plantel.

Um uso a mais: sexo e saúde reprodutiva

O ultrassom também vem sendo testado para outras finalidades na reprodução. Um estudo publicado em 2024 avaliou a técnica para identificar o sexo e observar ovários e testículos em tilápia do Nilo, com o peixe sob anestesia leve e sem precisar abri-lo. Para quem cuida de reprodutores, isso abre espaço para conferir o estado do plantel com menos manuseio.

O que isso tem a ver com gestão

A ultrassonografia só faz sentido quando os dados são bem registrados. Para saber se a seleção está dando resultado, é preciso acompanhar o desempenho dos lotes: de qual plantel veio o alevino, como foi o crescimento, qual foi a conversão alimentar, qual o rendimento na despesca. Sem esse histórico, a melhor medida do mundo vira uma foto solta.

É por isso que gestão e genética andam juntas. Quem registra o lote, a biometria e os custos de cada tanque consegue comparar origens e entender, com números, quais reprodutores entregam mais resultado na ponta.

Um caminho que se abre

A ultrassonografia de carcaça mostra para onde o melhoramento de peixes está indo: escolher melhor os reprodutores, mais rápido e sem sacrificar o animal. Para a tilapicultura, em que um ponto a mais de rendimento de filé significa uma tonelada a mais de produto a cada 100 toneladas de peixe processado, esse tipo de avanço pesa no resultado.

Se você trabalha com reprodução, vale conversar com seu fornecedor de genética e com centros de pesquisa sobre como a técnica pode entrar no seu plantel.

Fontes:

Ultrasound-Based Phenotyping for Genetic Selection of Carcass Traits in Oreochromis niloticus: Integrating Imaging Technology Into Aquaculture Breeding (REZENDE, C. E., et al., Aquaculture Reports, v. 38, 2024.)

Use of ultrasonographic imaging for non-invasive carcass yield prediction in Nile tilapia (Oreochromis niloticus) (REZENDE, C. E., et al., Aquaculture International, v. 31, 2023.)

First Evidence of Realized Selection Response on Fillet Yield in Rainbow Trout Oncorhynchus mykiss, Using Sib Selection or Based on Correlated Ultrasound Measurements (VANDEPUTTE, M., et al., Frontiers in Genetics, v. 10, 2019.)

Ultrasonography for non-invasive sex identification and reproductive assessment in Nile tilapia (Oreochromis niloticus). (SETTHAWONG, P., et al., Frontiers in Veterinary Science, v. 11, 2024.)

Evaluation of ultrasound imagery and body shape to predict carcass and fillet yield in farm-raised catfish (BOSWORTH, B. G., et al., Journal of the World Aquaculture Society, 2001.)

Uso da ultrassonografia na avaliação de características de carcaça (SUGUISAWA, L., et al., Embrapa Gado de Corte.)