Tilápia: como a espécie cresceu mais de 500% em 24 anos
Há duas décadas, a tilápia era só mais uma opção no mercado de pescados. Hoje, ela é uma das protagonistas da aquicultura mundial e os números provam isso com folga.
Uma trajetória de crescimento explosivo
Segundo o mais recente relatório O Estado Mundial da Pesca e da Aquicultura, da FAO, a produção global de tilápias e outros ciclídeos saltou de 1,19 milhão de toneladas em 2000 para 7,27 milhões de toneladas em 2024. Isso representa um crescimento superior a 500% em 24 anos, um ritmo que poucas proteínas animais no planeta conseguiram sustentar por tanto tempo.
Esse volume já corresponde a cerca de 11% de toda a produção mundial de peixes de cultivo, colocando o grupo entre os mais relevantes da aquicultura global. E o destaque não é só do grupo como um todo: a tilápia-do-nilo (Oreochromis niloticus), isoladamente, produziu 5,9 milhões de toneladas em 2024, o suficiente para estar entre as dez espécies aquáticas mais produzidas do mundo.
A tilápia não está sozinha, mas lidera pelo volume
A tilápia não é a única espécie de água doce em ascensão. Os bagres (catfishes) saíram de 530 mil toneladas em 2000 para 7,28 milhões em 2024, um salto de mais de 1.200%. Mas não podemos colocá-los no mesmo patamar das tilápias, considerando que os bagres dependem de várias espécies para somar esse volume e a tilápia-do-nilo alcança quase 6 milhões de toneladas sozinha, com uma concentração de escala e reconhecimento de mercado que poucas proteínas cultivadas conseguem igualar.
Por que a tilápia virou protagonista global
A tilápia cresce rápido, tolera diferentes condições de água, tem custo competitivo e se adapta a sistemas que vão de tanques rústicos a fazendas tecnificadas. Isso a tornou estratégica em países que buscam ampliar a segurança alimentar com investimento relativamente baixo. No Zimbábue, por exemplo, levantamentos recentes revelaram que a criação de tilápia cresce muito mais rápido do que as estimativas oficiais indicavam, com boa parte das fazendas surgindo nos últimos dois anos.
Do ponto de vista nutricional, a tilápia-do-nilo é classificada pela FAO como um alimento naturalmente baixo em gordura e fonte de nutrientes essenciais, sendo uma proteína acessível e saudável, o que ajuda a explicar sua presença crescente tanto em mercados domésticos quanto em cadeias de exportação.
Crescimento acelerado exige gestão à altura
Crescer rápido é mérito, sustentar esse crescimento é outro desafio. No Zimbábue, um levantamento identificou cerca de 2.000 fazendas de tilápia só na província de Manicaland, muito mais que as 600 estimadas para todo o país e 62% delas haviam surgido em apenas dois anos, muitas com dificuldade de acesso a alevinos de qualidade e custos de ração elevados.
Esse padrão se repete em diversas regiões: a expansão informal cobra seu preço não só na sanidade, mas também na gestão zootécnica e financeira. Sem indicadores confiáveis como conversão alimentar, custo por quilo, mortalidade por lote e outros, o produtor opera no escuro, e decisões que funcionavam no tanque pequeno viram prejuízo em escala maior.
É nesse ponto que a profissionalização faz a diferença. Produtores que combinam boas práticas sanitárias com controle zootécnico e planejamento financeiro conseguem transformar volume em rentabilidade real. Isso é o que separa uma criação que apenas cresce de uma operação sustentável e lucrativa.
Fonte: FAO. O Estado Mundial da Pesca e da Aquicultura 2026 (Tabela 1.5, Figura 1.6 e Box 1.7).
