O Brasil se consolidou como um dos maiores produtores de pescado de cultivo do mundo. Segundo a PeixeBR (Associação Brasileira da Piscicultura), a piscicultura nacional ultrapassou a marca de 1 milhão de toneladas em 2025, um crescimento de quase 60% em uma década. Já a carcinicultura, segundo o IBGE, registrou 146,8 mil toneladas de camarão cultivado em 2024.
Mas parte crescente dessa produção tem cruzado fronteiras. Veja quais países compram o pescado brasileiro, o que cada um busca e o que isso representa de oportunidade, e também de exigência, para quem produz.
O panorama das exportações
De acordo com o Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA), o Brasil exportou cerca de US$ 432,9 milhões em pescado em 2025, somando pesca extrativa e aquicultura. A projeção da ABIPESCA é de que esse número chegue a US$ 600 milhões em 2026.
Olhando só para a piscicultura de cultivo, o crescimento chama atenção. Segundo a Embrapa Pesca e Aquicultura e a PeixeBR, as exportações de peixes cultivados cresceram 102% em volume e 138% em receita em 2024, somando 13.792 toneladas e US$ 59 milhões. Em 2025, a receita passou dos US$ 60 milhões, praticamente estável mesmo em meio a tarifas internacionais mais restritivas.
A tilápia é, de longe, a protagonista, respondendo por 94% a 95% de tudo que a piscicultura brasileira exporta em valor. Os produtos mais embarcados são o filé fresco, refrigerado, e o peixe inteiro congelado.
Quem compra o pescado brasileiro
Estados Unidos, o principal parceiro: Os EUA absorvem entre 87% e 89% das exportações da piscicultura brasileira. Em 2024, importaram US$ 52,3 milhões em peixes de cultivo do Brasil, e em 2025 o valor se manteve na casa dos US$ 52,1 milhões. O carro-chefe é o filé fresco de tilápia. O Brasil saiu da 8ª posição entre fornecedores de tilápia para os EUA em 2020 e chegou à 4ª em 2024, sendo hoje o segundo maior exportador de filé fresco para o mercado americano.
A relação teve altos e baixos. Tarifas de até 50% impostas em 2025 reduziram a competitividade do produto brasileiro. Com a redução para a faixa de 10% no início de 2026, os embarques voltaram a se recuperar, embora a receita do primeiro semestre de 2026, de US$ 23,3 milhões, ainda esteja 34% abaixo do mesmo período de 2025.
Canadá: Segundo maior comprador, com volumes menores que os dos EUA mas em crescimento consistente. Só no Paraná, as compras canadenses de tilápia saltaram de 20 para quase 96 toneladas entre 2023 e 2024.
Peru Mercado em ascensão. As autoridades sanitárias peruanas aprovaram a importação de filé de tilápia refrigerada e congelada do Brasil, abrindo espaço no mercado andino.
China e Japão: Juntos, ficam entre os cinco principais destinos, cada um com 2% a 3% de participação nas exportações da piscicultura. Em 2025, o Japão autorizou a importação de óleo de peixe brasileiro, um sinal de confiança nos padrões sanitários do país.
Novos mercados: O MPA e a ApexBrasil trabalham para diversificar destinos. A Turquia foi habilitada em 2026 para receber peixes e óleos de peixe brasileiros, o Marrocos está em negociação, e Austrália e Oriente Médio entraram no radar. Só a partir do Paraná, o pescado brasileiro chegou a 27 países em 2024.
A União Europeia segue como a grande fronteira a reconquistar. Fechada para o camarão desde 2018 e com acesso restrito para peixes, sua reabertura gradual é uma das maiores apostas do setor.
E o camarão?
O camarão brasileiro já foi o maior exportado das Américas, em 2003. Depois de embargos sanitários e do fechamento do mercado europeu em 2018, as exportações recuaram e o setor se voltou ao mercado interno. Hoje, praticamente toda a produção de 146,8 mil toneladas, segundo o IBGE em 2024, é consumida no Brasil, um dos maiores consumidores de camarão do mundo. Investimentos em biosseguridade, rastreabilidade e certificações, no entanto, vêm reabrindo portas em mercados como Estados Unidos e Japão, e potencialmente na União Europeia.
O que o mercado internacional exige do produtor
Vender para fora não é só uma questão de volume, é também uma questão de comprovação. Entre as principais exigências estão:
- Rastreabilidade completa: origem dos alevinos ou pós-larvas, ração utilizada, manejos realizados. Os EUA passaram a exigir o Certificado de Admissibilidade (COA) desde janeiro de 2026, e a UE exige rastreabilidade por lote da produção até o processamento.
- Certificações internacionais: selos como BAP, ASC e GlobalG.A.P. são pré-requisito para vender a grandes redes nos EUA e na Europa.
- Controle sanitário rigoroso: o SIF é obrigatório para exportar, e cada mercado pode exigir laudos adicionais.
- Sustentabilidade e boas práticas: uso de água, impacto ambiental e condições de trabalho entram cada vez mais na avaliação do comprador internacional.
Para quem está na ponta da produção, isso se traduz em uma palavra simples: gestão. Quem controla seus dados, como arraçoamento, biometria, qualidade da água, custos por lote e histórico de manejos, tem vantagem competitiva real, seja para exportar diretamente ou para fornecer a frigoríficos e processadoras que já acessam o mercado externo. A rastreabilidade que o mercado exige começa no registro diário de cada tanque e cada viveiro.
O que vem pela frente
O setor já entendeu que depender de um único mercado é arriscado. A estratégia para os próximos anos passa por diversificar destinos, como Canadá, México, Marrocos, Turquia, Austrália e Oriente Médio, reconquistar a Europa, ampliar o portfólio de espécies exportáveis (pirarucu, tambaqui e surubim despertam interesse como espécies premium) e investir em produtos de maior valor agregado. As exportações de filés congelados de tilápia, por exemplo, cresceram 421% em 2025.
Com produção em escala, clima favorável, água abundante e avanço tecnológico, o Brasil reúne as condições para se tornar uma potência exportadora de pescado de cultivo. O caminho passa por profissionalização, controle de dados e gestão rigorosa da produção, da ração ao embarque.
Fontes: Embrapa Pesca e Aquicultura, PeixeBR (Associação Brasileira da Piscicultura), Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA), ABIPESCA, IBGE (Pesquisa da Pecuária Municipal 2024), Secretaria de Agricultura do Paraná, ApexBrasil.


