Quem cria tilápia já ouviu falar dele, e muita gente já sentiu o prejuízo de perto. O ISKNV, sigla em inglês para vírus da necrose infecciosa do baço e do rim, virou em poucos anos uma das maiores preocupações sanitárias da tilapicultura brasileira. Agora, um projeto de pesquisa quer dar ao setor ferramentas desenvolvidas aqui mesmo para enfrentar o problema.
O Laboratório Pathovet teve aprovado pela FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) o projeto "Desenvolvimento de ferramentas diagnósticas, preventivas e ambientais para o controle do ISKNV em aquicultura". A pesquisa está prevista para o período de 2026 a 2028 e é coordenada pelo pesquisador Miguel Frederico Fernandez Alarcon. Veja o que é o vírus, por que ele preocupa e o que o projeto pretende entregar.
O que é o ISKNV
O ISKNV é um vírus que ataca principalmente o baço e o rim dos peixes, órgãos ligados à defesa do organismo. Ele pode causar mortalidades altas e repentinas, afetando sobretudo os peixes mais jovens.
No Brasil, o primeiro registro científico em tilápia aconteceu em 2020, em uma piscicultura de Goiás. Desde então, o vírus foi identificado em várias regiões produtoras e passou a fazer parte da rotina de atenção sanitária de muitas fazendas.
Como o vírus aparece no viveiro
Em um estudo da UFMG que reproduziu a doença em laboratório, os primeiros sinais apareceram no terceiro dia após a infecção. Os peixes ficaram apáticos, parados no fundo, sem comer e com a pele escurecida. Depois vieram barriga inchada, olhos saltados e brânquias pálidas.
O problema é que esses sinais não são exclusivos do ISKNV. Outras doenças podem deixar o peixe com aparência parecida, por isso a confirmação depende de exame laboratorial.
O mesmo estudo trouxe uma informação que interessa a quem está na beira do tanque: a temperatura da água fez diferença nos resultados em laboratório. Juvenis infectados mantidos a 26 °C tiveram 60% de mortalidade. A 28 °C, foram 40%. A 30 °C, 30%. Já a 32 °C e 34 °C, não houve mortes. Os dados são de condições controladas, mas ajudam a entender por que os surtos costumam aparecer em épocas de queda e oscilação de temperatura.
O que o projeto pretende desenvolver
Hoje, o produtor ainda tem poucas opções para prevenir e acompanhar o ISKNV. A proposta da Pathovet é justamente ampliar esse leque, trabalhando em algumas frentes principais:
- Diagnóstico: desenvolver um teste capaz de medir a resposta do peixe à vacinação, ajudando a entender se o lote vacinado ficou de fato protegido.
- Prevenção: criar condições para avaliar, aqui no Brasil, a eficiência de vacinas e aditivos de ração contra o vírus.
- Ambiente: estudar formas de desinfecção e de monitoramento do ambiente de cultivo, para agir antes que um surto aconteça.
Como todo projeto de pesquisa, o caminho pode passar por ajustes ao longo do tempo. Mas a direção é clara: oferecer ao setor ferramentas nacionais para lidar com um problema que hoje preocupa produtores de norte a sul.
O que isso muda para o setor
O projeto foi aprovado pelo PIPE, programa da FAPESP que financia pesquisa inovadora em pequenas empresas e funciona como uma ponte entre a ciência e o mercado. Por isso, o foco não é só gerar conhecimento, mas entregar algo que possa ser usado.
Para a tilapicultura, os ganhos esperados passam por três pontos:
- Menos dependência de fora: com testes de vacinas e aditivos feitos no Brasil, o desenvolvimento de produtos nacionais pode andar mais rápido.
- Vacinação com comprovação: medir a resposta do peixe ajuda a avaliar se a estratégia de vacinação está funcionando no lote.
- Prevenção antes do surto: monitoramento ambiental e desinfecção bem feita atuam antes do problema, e não só depois que os peixes começam a morrer.
No fim das contas, o objetivo é reduzir perdas, dar mais segurança sanitária à produção de tilápia e fortalecer a competitividade da aquicultura brasileira.
Fontes: FAPESP. Desenvolvimento de ferramentas diagnósticas, preventivas e ambientais para o controle do ISKNV em aquicultura. Processo nº 25/20629-8. Empresa: Laboratório Pathovet Ltda. Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE). Biblioteca Virtual da FAPESP, 2026. FRANÇA E SILVA, T. M.; QUEIRÓZ, G. A.; LEAL, C. A. G. Experimental infection and the effects of temperature on the pathogenicity of the infectious spleen and kidney necrosis virus in juvenile Nile tilapia (Oreochromis niloticus). Animals, v. 14, n. 3, 452, 2024. FIGUEIREDO, H. C. P. et al. First report of infectious spleen and kidney necrosis virus in Nile tilapia in Brazil. Transboundary and Emerging Diseases, v. 69, n. 5, p. 3008-3015, 2022.


