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O que mais adoece a tilápia brasileira? Estudo da Pathovet com 26 mil amostras muda o que se sabia sobre doenças na piscicultura

Vista aérea de viveiros de tilápia com aeradores ligados, entre plantações e morros

Durante muito tempo, quando o assunto era doença em tilápia no Brasil, a estreptococose dominava a conversa. Um novo estudo da Pathovet Labs, laboratório de diagnóstico veterinário especializado em aquicultura, publicado na revista científica Frontiers in Veterinary Science, mostra que esse retrato mudou. A equipe da Pathovet analisou 26.057 amostras de peixes, coletadas entre 2023 e 2025 em todas as principais regiões produtoras do país, e identificou que hoje são três agentes, e não apenas um, que concentram a maior parte das ocorrências na tilapicultura nacional.

O levantamento é um dos maiores já feitos sobre o tema no Brasil e ajuda a entender para onde a vigilância sanitária do setor precisa olhar nos próximos anos.

Um retrato novo da saúde da tilápia

O estudo rastreou sete agentes causadores de doença em fazendas comerciais de Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul, Goiás, Bahia, Pernambuco, Ceará e outros estados, agrupados em três macrorregiões: Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste.

O resultado aponta um nome que pegou muita gente de surpresa: o ISKNV, um vírus identificado pela primeira vez em tilápias brasileiras em 2020, foi o agente mais testado e um dos mais detectados do estudo todo. Ao lado dele, a bactéria Lactococcus, que também começou a chamar atenção a partir de 2020, apareceu com uma frequência muito próxima à do vírus. A Streptococcus, até então vista como a principal ameaça, ficou em terceiro lugar entre os mais detectados, mesmo sem perder importância.

Na prática, isso quer dizer que o produtor que só se preocupa com estreptococose pode estar de olho em apenas uma parte do problema.

O que mais apareceu nas análises

Além do trio ISKNV, Lactococcus e Streptococcus, o estudo rastreou outros quatro agentes:

  • Edwardsiella, bactéria que mostrou tendência de aumento ao longo dos três anos, principalmente no Sudeste.
  • Francisella orientalis, que ficou praticamente restrita ao Sudeste, com comportamento mais estável e pontual.
  • Flavobacterium, responsável pela chamada columnariose, que teve a maior taxa de detecção entre todos os agentes, mas em um número pequeno de testes, o que pede cautela na interpretação.
  • Aeromonas, bactéria oportunista associada a situações de estresse, manejo inadequado ou queda da qualidade da água, que teve a menor taxa de detecção geral, mas já protagonizou surtos pontuais de alta mortalidade em outros estudos.

A fronteira que está se movendo para o Nordeste

Um dos achados mais importantes do estudo é geográfico. Historicamente, a maior concentração de doenças em tilápia estava no eixo Sudeste e Centro-Oeste, onde está a maior parte da produção do país. Mas os dados mostram um sinal claro de expansão para o Nordeste.

Em 2023, o ISKNV praticamente não aparecia nas amostras do Nordeste. Em 2025, a taxa de detecção na região já passava de 17%. O mesmo padrão de crescimento acelerado apareceu na Streptococcus e na Lactococcus, que também foram praticamente ausentes no Nordeste em 2023 e cresceram de forma consistente nos dois anos seguintes.

Os pesquisadores são cautelosos ao afirmar causa e efeito, já que o monitoramento não é probabilístico e o esforço de amostragem na região também aumentou no período. Mas o padrão, repetido em agentes biologicamente diferentes, é mais compatível com expansão real da circulação dos patógenos do que apenas com mais testes sendo feitos.

Para quem produz no Nordeste, ou está pensando em expandir para lá, esse é um dado para levar a sério na hora de planejar biosseguridade.

Peixes jovens, mais vulneráveis

O estudo também olhou para o efeito da fase de vida do peixe. Em alguns agentes, como Aeromonas, Streptococcus e Lactococcus, a fase de desenvolvimento influenciou de forma clara a chance de detecção da doença.

Já na análise de resistência a antibióticos, o efeito da fase de vida apareceu com ainda mais força: peixes na fase de alevinagem mostraram concentrações inibitórias mínimas (MIC, a medida usada para avaliar o quanto de antibiótico é necessário para conter a bactéria) significativamente mais altas do que peixes adultos. Ou seja, as bactérias que afetam peixes mais jovens tendem a precisar de doses maiores de remédio para serem controladas, o que reforça a importância de um manejo sanitário especialmente cuidadoso nessa fase do ciclo.

Antibiótico certo para a bactéria certa

Um dos pontos mais práticos do estudo é sobre o uso de antibióticos. A pesquisa mostrou que a resistência varia muito de acordo com o antibiótico e com o agente causador. Edwardsiella e Lactococcus, por exemplo, apresentaram concentrações inibitórias mínimas bem mais altas quando expostas a enrofloxacina e florfenicol, o que indica menor eficácia desses remédios contra essas bactérias especificamente.

A mensagem para o produtor é direta: o que funciona bem contra um agente pode não funcionar contra outro, mesmo dentro do mesmo tratamento. Tratar "no olho", sem diagnóstico e sem teste de sensibilidade prévio, aumenta o risco de desperdiçar insumo e ainda favorecer o surgimento de bactérias resistentes. No Brasil, vale lembrar, apenas florfenicol e oxitetraciclina são autorizados para uso em tilápia, o que reforça ainda mais a importância de um diagnóstico correto antes de qualquer tratamento.

Uma notícia boa em meio aos dados

Nem tudo no estudo é motivo de alerta. A Pathovet não encontrou, em nenhuma das mais de 26 mil amostras analisadas, o sorotipo Ia da Streptococcus agalactiae, uma linhagem que já causou surtos graves de alta mortalidade em outros países produtores de tilápia da América Latina entre 2021 e 2025. A ausência desse sorotipo no Brasil é uma boa notícia, mas também um alerta: o estudo recomenda reforçar o controle sobre o trânsito de peixes vivos e alevinos entre fronteiras, para que essa linhagem não chegue por aqui.

O que isso significa para quem produz

O estudo reforça uma lição que já é familiar para quem lida com manejo sanitário no dia a dia: quanto mais cedo um problema é identificado, menor o impacto financeiro dele. E isso começa com registro. Saber quando apareceram sinais de mortalidade, em qual tanque, em qual fase do lote e com qual histórico de manejo é o que permite cruzar informações e agir rápido, seja para chamar um diagnóstico laboratorial, ajustar o manejo ou procurar orientação veterinária.

No Meu Pescado, cada ocorrência de mortalidade, cada manejo e cada biometria ficam registrados por tanque e por lote, formando um histórico que ajuda a enxergar padrões antes que eles virem prejuízo.

Quer trocar experiências sobre manejo sanitário com outros produtores? Faça parte da Comunidade Meu Pescado, onde produtores, técnicos e pesquisadores compartilham o dia a dia da aquicultura.

Fontes: Cardoso-Guimarães M, Fernandez-Alarcon MF, Correa R, Miyoko-Natori M, Galetti R, Brito de Souza A, Squizatto AC, Silva R, Araújo de Almeida L, Mota Sátiro T, Ildefonso R, Rozas-Serri M. Epidemiological surveillance reveals major pathogen dynamics in Brazilian Nile tilapia aquaculture from 2023 to 2025. Frontiers in Veterinary Science, v. 13, artigo 1944605, 2026. doi:10.3389/fvets.2026.1944605. MINISTÉRIO DA AGRICULTURA, PECUÁRIA E ABASTECIMENTO (MAPA). Produtos farmacêuticos. Brasília, 2025.