2026 está sendo um ano de reviravoltas no comércio exterior do pescado brasileiro. O principal comprador reduziu as compras, um continente surgiu como novo destino em volume, o mercado interno sentiu a pressão de um concorrente asiático, e a Europa segue como a grande fronteira ainda fechada. Com base no Anuário Seafood Brasil 2026, este artigo traça esse panorama e o que ele significa para quem produz.
Para contextualizar: 2026 também é o ano em que a produção aquícola nacional bateu recorde, saltando de 910,4 mil para 1,251 milhão de toneladas. Esse volume extra precisa encontrar comprador, seja fora, seja dentro do Brasil, o que torna o cenário do comércio exterior ainda mais relevante. Já mostramos quem compra o pescado de cultivo brasileiro; a seguir, veja como esse mapa mudou em 2026.
Estados Unidos: liderança mantida, mas compras em queda
Os EUA seguem como o principal comprador, com cerca de 30% do valor exportado em 2026. Mas, no acumulado até agosto, as compras americanas caíram 30,3% em volume e 33,4% em valor na comparação com 2025, aprofundando uma queda que já vinha desde 2023.
Em julho, o governo americano aplicou uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros (Seção 301). Itens centrais da pauta de pescado, como atum, pargo, lagosta e o filé de tilápia resfriado, ficaram de fora, graças à atuação da Abipesca e do NFI (National Fisheries Institute dos EUA) junto ao governo americano. Ainda assim, a incerteza tarifária ampliou a cautela do setor, acelerando a busca por outros destinos. A Abipesca já propôs ao governo brasileiro uma cota de importação de filés de tilápia de 5% da produção doméstica, como forma de conter a entrada de produto estrangeiro, nos moldes do que China, Canadá, EUA e a própria União Europeia já praticam.
A outra ponta: a tilápia vietnamita no mercado interno
Enquanto o Brasil disputava espaço lá fora, abriu-se uma brecha em casa. Até 2024, o país praticamente não importava filé de tilápia. Nos primeiros oito meses de 2026, essas importações já somavam 10,2 mil toneladas e US$ 43,2 milhões, majoritariamente do Vietnã, que expandiu sua presença do tradicional panga para a tilápia, justamente no mesmo período em que as exportações brasileiras da espécie recuaram 41,7% em volume.
No total das importações de pescado, o Vietnã foi quem mais cresceu: 54,3 mil toneladas até agosto (+31,6%), já 25,2% de todo o volume importado pelo Brasil, um crescimento de quase 200% em três anos. É esse avanço vietnamita, mais barato e agressivo, que vem pressionando diretamente o produtor de tilápia dentro de casa.
África: o novo destino em volume (mas não em receita)
Enquanto os EUA recuavam, a África surpreendeu: 16,4 mil toneladas de pescado brasileiro até agosto, alta de 79,0% sobre 2025, tornando o continente o principal destino em volume das exportações (33,6% do total). Em faturamento, porém, representou só 10,6% da receita (US$ 25,8 milhões).
A Costa do Marfim liderou, com 5,7 mil toneladas, quase cinco vezes o volume de 2025, concentradas em espécies de menor valor agregado, o que puxou para baixo o preço médio das exportações. Na prática, o Brasil está exportando mais quilos, mas não necessariamente mais dinheiro.
União Europeia: perto de reabrir, mas ainda sem data
O mercado europeu está fechado para a aquicultura brasileira há quase nove anos, desde 2018, por falhas em rastreabilidade e controle sanitário. Em 2026, o processo de reabertura avançou: o Acordo Mercosul-UE foi assinado em janeiro, e entre 8 e 19 de junho uma missão de auditoria sanitária europeia visitou plantas e embarcações no Rio Grande do Norte e em Santa Catarina.
Até o fechamento do Anuário, porém, a UE ainda não havia dado resposta oficial. A própria expectativa da Abipesca é recuperar esse mercado "ainda em 2026 ou, ao longo de 2027". O sinal é positivo, mas a reabertura formal ainda não aconteceu, e o camarão segue fora dessa frente, com critérios próprios de embargo.
O que isso significa para quem produz
O cenário de 2026 deixa uma lição clara: o mercado externo é promissor, mas instável, e crescer em volume não é o mesmo que crescer em receita, como mostrou o caso africano. Depender de um único comprador deixa o setor exposto, e isso vale tanto para onde o Brasil vende quanto para o que compra lá fora.
Para o produtor, a resposta está nos dados: rastreabilidade e controle de qualidade por lote são a base para estar pronto quando um mercado como a União Europeia finalmente reabrir, ou quando um mercado já aberto exigir mais comprovação para manter o acesso.
Fontes: Anuário Seafood Brasil 2026 (edição 65) — dados Comex Stat/MDIC, JubartData, Abipesca, Peixe BR, NFI, Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA) e Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).


